AVENTURANDO EM PARIS
(Crônicas de Viagem)


Saindo de São Paulo-Guarulhos, depois de doze horas de vôo em classe econômica durante toda a noite num Boeing 777 da Air France, mas regado com chanpagne francesa, um jantar incrível com cordeiro ao vinho, e um café da manhã espetacular, mas sem pregar os olhos um minuto sequer, na antevéspera do dia do Natal de 2011 desembarquei em Paris.
Se fosse a Alfa Centauro daria na mesma por que sem entender ou falar francês e/ou inglês e apenas arranhando o español eu já previa que a partir daquele momento a imprevisibilidade dos acontecimentos seria minha companheira constante.
E a essa altura da minha vida eu sentia a necessidade de um teste pra saber quem era eu em alguma parte do mundo que não fosse o meu, e por isso estava muito satisfeito e pagando pra ver.
A primeira dificuldade que tive já foi para sair do aeroporto Charles De Gaulle por não entender as respostas recebidas em francês atropelado ou em catalão que acreditavam ser espanhol no balcão de informações à turistas, para eu chegar até o ponto de ônibus da Air France que me levaria até Paris.
Diante do impasse resolvi dar mais uma apimentada na situação depois de observar uma enorme placa que dizia em francês (Train to Paris) optei por ir de trem, mas o problema era simplesmente saber como.
Consegui depois de tentar entender o inglês de uma elegante senhora que no final por um deslize da parte dela descobri que era portuguesa, aí ficou fácil, e me explicou o caminho e sobre todas as esteiras rolantes até a plataforma do trem.
E logo em seguida a segunda dificuldade, a compra da passagem para Paris.
A vendedora era uma máquina linda e fria que alem de não falar a minha língua só aceitava cartão Navigo ou moedas, e pra variar eu não tinha nenhum dos dois.
Fiquei observando por algum tempo o pessoal usar a bendita máquina, mas eram mesmo sós cartões e moedas.
Fui checando o pessoal pela cara até a aproximação de uma negra muito bonita, elegantemente vestida que se dirigia para a máquina.
Parecia gente fina, então... decidi pagar para ver e fui em frente!

Papo traduzido na pronúncia real da situação :

= BON JOUR, PARDON MADEMOAZELL, SIVUPLÊ, HABLAS ESPANÕL?
Ela deu uma recuada meio desconfiada, mas logo se aproximou
NO, PARDON, JE NE PARLE QUE FRANCÊ!
…BUT, JE VU SPIKE INGLES?
= NO I DÓNT, MAS BUT, FICA FRIA!
Gesticulando meio assim tipo Braille genérico: I IN TO GO PARIS, GARE DU NORD,
I DONT BILLET,
MI CARD DONT FUNCIONA,
PLEASE, USE YOU CARD FOR MY? DO YOU UNDSTEND-ME?
E ofereci a ela uma nota de 10 Euros
YES, I IN, SO SO! GADUNÓ? OK
Consultou o valor do bilhete = 9euros e 10cents.)
= FOI TIRO E QUEDA!
Introduziu o cartão dela na máquina apertou umas parafernálias e me entregou o bilhete, mas deu a entender que não tinha troco.
= DÓNT IMPORTANT, MERCI MADEMOAZELL, MERCI.
= Mais fácil que tirar doce de criança
= Pouco mais de meia hora depois eu chegava ao meu destino, a estação central Gare Du Nord em Paris.

Irineu T. Paulini/2012.


'OS CORRUPTOS DE PARIS'

Montmartre é um bairro boêmio de Paris com centenas de galerias de arte em uma das mais famosas de suas praças, a Place Du Tertre, freqüentado por muitos intelectuais e principalmente pela nata dos pintores parisienses e os mundialmente famosos, que em Paris são chamados de (Desenhistas de Rua).
Mas uma coisa dessa região me fez lembrar a tumultuada Rua 25 de Março e a Feira da Madrugada do bairro do Brás em São Paulo
É que também existem Fiscais que criaram uma espécie de máfia em Montmartre que controla o acesso dos artistas na Place Du Tertre.
Ou paga ou não entra.
Por esse motivo que dezenas de artistas trabalham a distancia de dois quarteirões da praça pelas ruas laterais até a Basílica do Sacre Coeur.
Durante a noite quando cai o movimento da freguesia já não tem tanto controle.
Vi isso acompanhando o Theodor, um Romeno, movido a vinho, café e cigarros, veterano pintor e retratista muito famoso por lá, durante o dia e a noite em seu trabalho em 27/12/11.


Voltei num giro pela Europa em Setembro/Out. de 2012, e quando em Paris retornei a Montmartre para visitar meu amigo Theodor, mas segundo me disseram alguns de seus amigos ela ganhara muito dinheiro e decidira voltar para a sua querida Romênia.
Mas em relação á Máfia dos Fiscais me disseram que nada mudou!


PARIS OPEN-TUR


Ônibus dose dupla identificados com uma placa em 3 cores, uma para cada percurso (desce e sobe) que circula pelos principais pontos turísticos de Paris.
Horário, das 08h00 as 17h00 horas. Alta Temporada até 19h00.
Preço: 1 dia = $29,00 Euros.
Por 2 dias = $39,00 Euros. (1$EURO= +ou- R$ 3,00)


Tive algumas dificuldades com as informações em Francês para localizar a agencia do ponto de partida do Open-Tur até deduzir que ele é circular e não tem ponto inicial, mas pontos de paradas de entra e sai e se compra o ticket na hora com o motorista.
Achei um absurdo o preço, mas paguei 39 Euros por 2 dias e entrei no amarelo que faz a linha dos grandes Boulevards, Ópera, Louvre, Notre Dame e a Torre Eiffel que se encontram dentro e nos contornos da Ile de La Citê.
Embora já fossem 2 horas da tarde achei que 5 horas dentro de um ônibus já daria para encher o saco de qualquer um e no dia seguinte eu completaria as etapas que eu agüentasse ficar rodando. Ao chegar ao ponto de parada ao lado da torre Eiffel já estava escuro devido ao inverno e o motorista comunicou aos passageiros que o percurso encerrava ali ás 17 horas e que não completaria o retorno porque dali ele recolheria o ônibus.
Disse para quem tivesse que voltar que pegasse o metrô no Trocadero e fosse até Saint Michael dês Prés em Notre Dame e de lá pegaria outro até vários destinos. Simples pra cacete pra quem conhece e fala Francês.
Achei uma tremenda sacanagem.
Fiquei bronqueado porque no tíquete do ônibus a propaganda do circuito dizia 19 horas e eu pretendia voltar com ele para as proximidades do meu hotel.
Mantive a calma, fotografei bastante, dei um passeio pelas redondezas da torre, comprei alguns chaveirinhos, sentei num banco em baixo da torre para descansar um pouco e sossegadamente comer um gordo sanduíche misto preparado no café da manhã do meu hotel e tomar um Sprite saídos da minha sacola mágica.
Mais ou menos lá pelas tantas, já bastante cansado resolvi voltar e fazendo de conta que sabia o caminho de volta para casa segui em direção ao Trocadero para pegar o metrô e após três ou quatro pedidos de informações recebi uns três ou quatro não sei em vários idiomas, porque nas ruas de Paris não existe parisienses, mas só turistas.
Finalmente depois de ouvir um Aller de l´avant et tournez a droite puis á gauche, Comprenez? Oui monsieur, merci, respondi, e segui na direção indicada.
O cara sabia o que estava falando, mas eu é que não entendi bulhufas do que ele estava dizendo, mas prestei bastante atenção nos movimentos das suas mãos e pra onde apontava e finalmente achei a entrada do metrô.
Desci as escadas e encarei outro problema, a bilheteria, composta de uma fresta que mal passava o bilhete por baixo com uma funcionária que falava rápido e não levantava a cabeça ao atender o público. Fui ao guichê do lado e topei com um cara mais grosso que pescoço de halterofilista me encarando e grunhindo qualquer coisa que para mim era grego ou pior ainda, e decidido berrei pela fresta do vidro; Á La gare Du Nord, sivuplê!
Me passou o bilhete e devolveu o troco de dez euros e falando rápido um monte de instruções em grego e apontando em direção as escadarias deram-me a entender que os meus problemas teriam outros lances adicionais ainda.
Desci a escada rolante até o piso das plataformas e já senti o movimento de trens dos dois lados e resolvi sentar por algum tempo observando e me inteirando da situação para depois pedir informações á um casal de mãos dadas que estavam se arrulhando a espera do metrô. Trocamos farpas em várias línguas até que entendi que a mulher disse que eu deveria passar para o outro lado no sentido contrário em direção a Notre Dame e depois trocar de ramal e deu o nome e o número do trem que eu não entendi, mas agradeci e subi as escadas e atravessei para o outro lado.
Pouco depois chegou meu metrem, pois os vagões não se pareciam nada com o metrô conhecido e tinham dois andares tipo dose dupla inglês. Era um trem mesmo da Ratp.
Entrei e desci para o piso inferior quase vazio e me acomodei numa poltrona do lado direito do vagão, eu estava bastante cansado para aquele dia.
Quando bati os olhos para a esquerda do vagão havia três negros sentados com umas sacolas de lona no chão e me olhando, e eu não os havia notado porque ficavam fora da minha visão numa espécie de hall com quatro banquetas e interromperam o papo quando eu entrei. Então lembrei que negros em Paris são como pipocas em cinemas.
Eram marreteiros de souvenires dos pontos turísticos de Paris, acho que voltando para suas casas naquela hora e quando viram que eu não oferecia nenhum perigo voltaram a conversar alto e rir bastante. Inclusive um deles abriu a sacola para comentar com o amigo as sobras do dia das torrinhas e outras lembrancinhas que por sinal eu tinha comprado na torre Eiffel meia dúzia das pequenas e uma maior que a Gisele tinha me pedido, mas talvez ali com eles fossem mais baratas, mas eu não quis me arriscar a conversação embora alguns marreteiros falem o espanhol.
Estavam tão entretidos na conversa que nem notaram quando eu me levantei e desci do trem em Notre Dame.
Não tive dificuldades digna de nota para embarcar no metrô seguinte, porque na fila da bilheteria tinha um jovem casal cuja mulher com algumas dificuldades hablava español e me deu algumas dicas muito úteis para as duas próximas escalas que me levaria para meu hotel entre a Gare de Lest e Gare Du Nord.
Como tinha comprado um bilhete para dois dias resolvi dar mais um giro por Paris usando inclusive o ônibus que fazia outro percurso com atrações como Jardins, Igrejas, monumentos históricos que pouco me interessei e que achei até um desperdício do meu tempo.
No dia seguinte pedi algumas informações sobre ônibus e metrô à uma das atendentes na recepção do hotel porque pretendia voltar com mais tempo para fotografar alguns monumentos históricos na Ille de Saint Louis, La Citê e na região da torre Eiffel, Louvre, Notre Dame etc., e segundo ela me informou, ao lado da Ópera e das Galerias Lafayette eu poderia tomar o ônibus 42 que fazia exatamente esse trajeto.
Resolvi caminhar por uns quinze ou vinte minutos descendo pela Rua Lafayette com sua belíssima Igreja e as vitrines das lojas todas enfeitada, em direção as Galerias e a Ópera Garnier aproveitando como um belo passeio.
Algum tempo depois de lá estar e de dezenas de indagações inclusive a vários motoristas de ônibus cheguei á conclusão que o 42 não passava por ali e tampouco o metrô das imediações não seguia para a direção que eu queria.
Perdi quase uma hora nessa tentativa e já estava ficando aborrecido quando resolvi reavaliar a minha situação com calma em busca de uma solução, afinal eu não tinha nenhum compromisso para me tirar do sério.
A menos de cinqüenta metros de onde eu estava vi estacionar um ônibus dose dupla amarelo da empresa Open-Tur, aquele mesmo que me sacaneara dois dias antes encerrando o expediente ás 17 horas diante da torre Eiffel, então me lembrei de já ter parado nesse lugar e que aí na Ópera era um dos pontos de desce e sobe de turistas desse percurso.
O motorista abre a porta central do ônibus para a descida dos passageiros e logo a seguir abre a porta dianteira para a entrada dos que vão entrar para pagar e iniciar a viagem turística ou continuar a interrompida naquele ponto apresentando o bilhete.
A decisão foi instantânea, caminhei em direção a porta de saída dos passageiros e esperei até quase o último a descer e entrei no ônibus, escolhi um lugar entre os passageiros que lá continuavam, sentei-me e calmamente coloquei o fone de ouvido e com a maior naturalidade cliquei o número nove que era o idioma português.
Para minha sorte a pessoa ao lado não era brasileira, após alguns minutos de ansiedade aguardando até a partida do ônibus, baixou a adrenalina e eu segui viagem tranqüilamente até onde pretendia ir sentindo-me sem remorso algum e compensado pela sacanagem da viagem anterior onde me julguei esbulhado.
Eu tinha guardado comigo o bilhete das viagens que fizera anteriormente, com a data vencida e já sem validade, mas talvez se algo desse errado servisse para uma opção B dando uma de João sem braço e por não entender nem falar o idioma, eu diria em Francespanhol que pensava que valia para sempre ou coisa que o valha e etc., mas felizmente tudo terminou muito bem.
A Operação Open-Tur fora bem sucedida.


LOUVRE, ah, o Louvre...


O Museu do Louvre se excluídas as salas de exposições é um enorme Shopping Center com um estacionamento subterrâneo para centenas de ônibus de turistas do mundo todo e para milhares de carros.
La tem bares, confeitarias, restaurantes, trombadões, livrarias e todo tipo de comércio que se possa imaginar e se vende desde todas as cópias de obras de arte, jóias famosas e bijuterias, informática, carros e aviões, fast foods, adegas, cafezinho a cinco euros, biscoito de polvilho e até bolinho de bacalhau, e como todo o francês que se preze esse museu é intrinsecamente desrespeitoso para com todos os turistas e principalmente com os idosos.
O acesso as bilheterias no andar inferior do museu é feita por uma única entrada atrás da pirâmide de vidro para uma porta estreita e normalmente com uma fila enorme direcionada entre cordas e vigilância cerrada.
A porta de saída é três vezes mais espaçosa e não tem o mínimo controle e tampouco vigilância. Outra cultura com certeza.
Entrei calmamente por essa porta sem problema nenhum e desci pela escada rolante que me levou até a invertida pirâmide de cristal ao lado das bilheterias.
Ao lado das bilheterias uma grande placa com os valores dos ingressos e um chute no saco de qualquer aposentado brasileiro.
Estava em francês, mas dava pra entender claramente;
BILLET POUR LES VISITES: $20 EUROS.
ENFANTS ET LES ADULTES JUSQU’À Á 23 ANS, GRATUIT.... É MOLE?

R$=REAL, A MOEDA FAJUTA em Paris.


Na Gare Du Nord, a estação de onde parte os trens de Paris para toda a Europa e defronte a plataforma do magnífico Euro star funciona uma casa de Cambio para troca de moedas do mundo todo, inclusive de algumas completamente desconhecidas ou ignoradas da numismática internacionalmente conhecida.
Pasmem, naquele quadro enorme com dezenas de moedas estranhas e com os nomes mais esquisitos com seus valores de compra e venda, não constava o Real.
Perguntei ao cambista sobre o Real e ele respondeu que desconhecia.
Jê ne sais pás, respondeu.
Mostrei-lhe uma nota de cinqüenta reais ele olhou demoradamente e balançou a cabeça negativamente.
Jê ne sais pás.
Foi uma grande decepção porque se eu dependesse desse dinheiro para tomar um cafezinho ou comer um lanche qualquer em Paris estaria fud...ferrado.


TECNOLOGIA INFALÍVEL

No dia do meu retorno ao Brasil fui à Gare Du Nord comprar uma passagem de trem para o aeroporto CDG que custava $9,10 EUROS numa dessas dezenas de máquinas meio complicadas que estão espalhadas pelas estações de trens e metrôs de Paris, só aceitam cartões e moedas, mas a essa altura eu já estava familiarizado com esses monstrinhos.
Coloquei 4 moedas de 2 euros, uma moeda de 1 euro e uma moeda de 10 Centavos de Real que é muito semelhante em tamanho e peso a moeda de 10 centavos de euros.
Não cheguei nem a ouvir o barulho da queda da última moeda no fundo da caixa quando ela acendeu uma luz vermelha, emitiu um som alto parecido com essas caixas registradoras manuais antigas, devolveu todas as moedas que eu tinha colocado e se autodesligou.
Recolhi as moedas, virei-me e disse em bom português do Brasil para o cara que estava na fila atrás de mim, (Essa porra ta com defeito!), e me mandei para uma máquina no final da ala. Pouco tempo depois notei que ela voltou a funcionar.
Dessa vez coloquei 10 Euros em moedas, ela devolveu 90 centavos de troco e em seguida caiu o bilhete no local correto.
Ao me encaminhar até a plataforma de embarque as escadas rolantes estavam desativadas devido a uma greve, então me dirigi para a escada central, mas com uma bagagem a tiracolo e uma mala com rodinhas eu estava descendo cada degrau com certa dificuldade quando um cidadão ao passar rapidamente por mim notou e se voltou dando a entender que queria ajudar e ato contínuo colocou minha mala sobre os ombros e desceu as escadas facilmente, colocou minha mala no chão, fez uma reverência tipo namastê e prosseguiu seu caminho.
Era um rapaz Indiano com toda a certeza, porque pelo que vi por lá essa atitude de respeito e cortesia jamais seria prestada a um turista em Paris por um policial ou qualquer cidadão Francês.
Segui até a plataforma B e logo depois já estava embarcado a caminho do aeroporto CDG. O alto falante do vagão anunciou em vários idiomas que o trem era direto para o aeroporto com a primeira parada de cinco minutos já no Terminal 1 e seguiria para o Terminal 2 que estava alguns minutos adiante e era o que me interessava.
Desembarquei e subi por uma escada rolante até o piso superior e seguindo algumas pessoas que também tinham desembarcado comigo passamos por uma roleta e descemos novamente na plataforma de desembarque. Que mico. Ao atingir o piso superior deveríamos entrar pelo corredor ao lado direito que tinha uma grande porta de vidro que abria por aproximação, mas eu não notei e nem os outros.
Contornei as escadas e voltei pelo mesmo caminho e então tive uma surpresa desagradável, era uma catraca para o Terminal 2 que só abria com bilhete ou cartão, e eu não tinha nenhum dos dois.
Não fiquei nervoso porque havia chegado com horas de antecedência ao meu vôo, mas estava cansado e meio bronqueado quando o que parecia ser um funcionário do aeroporto se aproximou e pronunciando algumas frases em francês tirou o cartão do bolso e passou no visor abrindo a roleta e fez um sinal com a mão para que eu passasse. Agradeci e segui em frente, mas tive a impressão que ele estava lá para resolver situações como essa que aconteceu comigo.
Mas o bom senso manda que se deva manter o bilhete já usado nas viagens sempre a mão para abrir as catracas das portas de saídas de algumas estações de trens e de metrôs de Paris.
Da área de desembarque do trem dentro do aeroporto até o balcão do check-in da Air France no final do terminal dois foi uma caminhada e tanto por longas esteiras planas que amenizavam um pouco o cansaço daquela peregrinação.
Finalmente e felizmente fui pedir informações a uma minúscula funcionária que alem de extremamente prestativa falava espanhol perfeitamente, passando-me prioritariamente pelo check-in da empresa, onde eu tentei com a funcionária a todo custo e deficientemente em vários idiomas conseguir uma poltrona na janelinha, mas foi em vão, nada de Janelas, Windows ou Ventanas.
Despachei a minha mala e me conformei com a minha falta de sorte.
A seguir a minha anfitriã me conduziu até ao check-in da polícia federal, onde duas garrafinhas de água Perrier que levava na bagagem de mão foram seqüestradas e atiradas no cesto de descartes, mas sob meu inócuo protesto.
Em minhas viagens passo constantemente pelo constrangimento de ser revistado em ambiente fechado por ser portador de um suporte para hérnia inguinal contendo metal ferroso e que o alarme acusa sempre que passo sob aquela bendita porta da policia federal.
Fui conduzido como sempre até uma saleta especial para a revista, tirei os sapatos como de praxe, mas esta vez o dedicado funcionário francês queria que eu retirasse o suporte da virilha para ser passado pela máquina de Raio-X.
Fiquei com vontade de dar uma porrada naquele sujeito, mas levei-o na gozação e fingindo estar indignado e gesticulando disse-lhe: Cara, se eu tirar este suporte meus escrotos vão cair, e você acha que eu sendo brasileiro e planejando explodir alguma coisa eu amarraria uma bomba no meu próprio saco? Você esta louco?
Não creio que ele tenha entendido o que eu falei, mas ele desistiu da idéia de remover o meu equipamento do lugar onde estava e me liberou sem mais problemas para as salas de espera na área dos portões de embarque do aeroporto.
Felizmente não viram ou deixaram passar uma marmita plástica com frango assado e algumas batatas coradas, sobra da janta da noite anterior e bem embrulhada no fundo da minha bagagem de mão, protegida por uma temperatura abaixo de zero grau.
A marmita veio a calhar porque já era noite e eu me lembrei que não havia almoçado, somente comera algumas tranqueiras para disfarçar o estômago e como o meu vôo só sairia ás 23h30min eu teria ainda muito tempo pela frente até que fosse servido o jantar no avião.
Com o seqüestro da minha água mineral fui obrigado a pagar $3,80 euros por uma garrafinha de Sprite para tomar com meus remédios anti-hipertensivos e jantar meu franguinho assado, o que foi calmamente executado numa confortável poltrona defronte a loja chiquérrima da Chanel e sob o olhar atento das câmeras de segurança do aeroporto francês.
Naquela prolongada espera de algumas horas pelo meu vôo circulei por todos os andares de departamentos do Free Shop do CDG.
Numa adega luxuosíssima eu até fotografei garrafas de vinho de $6.000 euros, mas não encontrei nem um bebedouro para o público e eu me recusava a pagar mais $3,80 euros por uma garrafinha de água no quiosque e que eu pagara $0,90 no supermercado.
Circulando pelo piso inferior entre um restaurante chic e uma agencia de passagens da Air France vi uma porta ligeiramente afastada com uns dizeres mais ou menos employed only, o que para o meu inglês tetraplégico foi traduzido como (somente para funcionários) e aproximando-me da porta entreaberta dei uma espiada lá dentro só por curiosidade.
Era uma espécie de vestiário com dezenas de armários agrupados e uma longa pia cheia de torneiras e quase na entrada ao lado da porta uma pequena mesa e uma cadeira e um bebedouro com aqueles garrafões de cabeça para baixo com água mineral e mais adiante de costas uma senhora negra gorda com uniforme azul, e que quando se virou e me viu com uma sacola a tiracolos e uma mala de viagens com rodinhas ao meu lado eu já tinha quase cheia a minha garrafinha com água mineral.
Deu um passo a frente sem dizer nada me encarando meio atônita, mas eu lhe dei um sorriso de cara dura, agradeci com um “mercibeaucoup” e saí numa boa por onde havia entrado.
Felizmente na hora prevista a porta do finger de acesso a aeronave foi aberta e em fila organizada por ordem de Primeira Classe, Mulheres grávidas e com crianças, Deficientes físicos e Idosos tem prioridades, e por isso fui um dos primeiros a embarcar.
Minha poltrona era a 41-K ao lado da 41-L (Janela) na parte traseira (cozinha) do Boeing 777-300 ER, parte mais espaçosa e com fileiras só de poltronas duplas para facilitar a movimentação das comissárias com os carrinhos de alimentação.
Assim que localizei a minha poltrona notei que a 41-L ainda estava desocupada, então rapidamente ajeitei minha mochila no bagageiro, e sem pensar duas vezes me sentei na poltrona da janela já pronto para fingir que estava dormindo.
Se é que alguém consegue dormir na hora de uma decolagem.
Eu estava enganado
Nem deu tempo de fingir quando a passageira chegou, olhou o 41-k, colocou a mochila no bagageiro, pediu licença em inglês e se sentou sem reclamar. Beleza.
Era jovem e bem loura e parecia bastante cansada porque antes da decolagem para a minha surpresa ela já estava dormindo.
Acordei-a com um leve toque no braço para que desligasse o celular e afivelasse o cinto de segurança para a decolagem.
Ela agradeceu, desligou, afivelou o cinto e dormiu de novo.
Mais ou menos meia hora após a decolagem ela foi novamente acordada pela comissária que distribuía o menu para o jantar. Ela fez a escolha do prato e falou em alemão com a aeromoça, mas depois deu um sorrisinho e toda a conversa sobre a comida e as bebidas transcorreu em inglês.
Talvez a fome a tenha deixado um pouco mais desperta e enquanto aguardava o jantar puxou um papo e disse que era alemã, e perguntou de onde eu era e se falava outras línguas.
Respondi no meu inglês tetraplégico que falava português e um pouco de spanish, e dei a entender a ela que em outras línguas eu apenas conseguiria sobreviver por algum tempo.
Falar em fome o que vi a seguir foi no mínimo impressionante em se tratando de uma moça daquela aparência delicada.
Ela tomou champagne, comeu quase tudo o que veio naquele jantar inclusive os pães, tomou água, uma garrafinha de vinho, fruta, sobremesa, geléia e café e a seguir reclinou a poltrona, colocou a máscara para dormir, ajeitou o capuz do agasalho e dormiu que até babou, até ser acordada para o café da manhã.
Para passageiros como eu que dificilmente conseguem dormir mesmo em vôos de longa duração a vigília se torna terrivelmente maçante mesmo se tentando distrair vendo algum filme ou como prefiro sempre a janela procurar vislumbrar um óvni ou algum anjo voando perdido pela escuridão do céu.
Após o farto desjejum do qual desviei para a minha sacola alguns potinhos de sobremesas e algumas iguarias embaladas, a minha vizinha de poltrona outra vez comeu quase tudo.
Pouco depois foi distribuída a folha para o preenchimento exigido pela polícia federal a todo viajante na chegada ao país.
Ela encontrou alguma dificuldade para o preenchimento e pediu ajuda e para mim não foi difícil porque eu a mandei colocar NO em todas as casinhas do formulário.
Após as restrições da aterrissagem e a abertura das portas foi dada a autorização para o uso dos celulares e a maioria dos passageiros já estavam se comunicando com seus familiares quando eu saquei do bolso da jaqueta o substituto do meu velho, modesto e eficiente LG que nunca me falhou, o meu recém adquirido celular LG – Andróide 3G, uma jóia tecnológica de última geração para comunicar a família da minha chegada conforme havíamos combinado.
Como não tive tempo de praticar o seu uso e na França não consegui usá-lo foi um sofrimento controlar aquelas imagens tresloucadas na tela do celular, quando parecia que eu ia conseguir, o aparelho mudava toda a configuração e voltava à estaca zero da comunicação e enquanto eu tentava outras vezes o tempo ia passando.
Estava tão compenetrado na minha fracassada tarefa que não me dei conta que todos os passageiros já haviam saído do avião e eu era o último a permanecer a bordo.
Quando caiu a ficha caminhei rapidamente pelo corredor em direção a porta de saída, mas não escapei de pagar um mico por que quase toda a tripulação incluindo o comandante estavam perfilados e rindo discretamente aguardando a minha saída.
Como o meu francês também é tetraplégico só deu para pronunciar um mercibeaucoup e desejar a todos eles um feliz ano novo em nosso bom português mesmo.
Ao chegar em casa a primeira coisa que fiz foi remover o chip daquela maravilha tecnológica e introduzi-lo novamente no meu simples, velho, mas eficiente celular.
Até hoje o meu Andróide 3-G bonitão e moderno deve estar em algum porta trecos abandonado em lugar incerto e não sabido, em algum canto da minha casa.

ITP

 

 

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