LÁGRIMAS FURTIVAS

No final da década dos anos`50 eu dividia um quarto de pensão com um tal de Otto, funcionário público do Estado que conseguira uma transferência de uma agência de Bebedouro cidade onde morava, para o setor de penhores da Caixa Econômica aqui em São Paulo na agência do Vale do Anhangabaú.

Um bom colega de quarto, um cara sem vícios, bem educado e muito organizado no uso dos nossos objetos de uso comum, atitude raramente encontrada em tipos comuns de moradores em pensões, mas em compensação falava até pelos cotovelos.

O problema é que o papo era sempre sobre os acontecimentos no seu dia de trabalho, contava sobre a viúva toda chorosa ao penhorar as jóias presenteadas pelo falecido, da costureira pendurando sua velha máquina de costura, do malandro tentando penhora um relógio que acabara de roubar e fora desmascarado com apenas duas perguntas do chefe do setor, e outras dezenas de casos bizarros.

Como todo santo dia era a mesma ladainha, sugeri a ele que mandasse seus “causos” para algum jornalista de qualquer jornal ou revista, pois talvez ele os publicasse.

Disse-me que iria pensar, e aproveitando o momento veio com outra história.

- Era sobre um homem que entrou cabisbaixo na agência e colocou sobre o balcão um embrulho, mais um penhor pensei eu.

- Mas ao me aproximar notei que o homem estava bastante nervoso e embora procurasse disfarçar, chorava, e tinha em mãos um objeto que desejava empenhar.

- Abri o embrulho, dentro havia um lindo ursinho de pelúcia. O sujeito enxugava os olhos com a manga puída do velho casaco e meio sem jeito, procurou explicar.

- Foi a madrinha dela quem deu, mas hoje a minha filha precisa mais do dinheiro do penhor eu acho...

- Levei o objeto até o nosso avaliador, que estipulou o valor a ser pago, entreguei-lhe o canhoto do recibo, ele passou pelo caixa, colocou o dinheiro no bolso e afastou-se em passos rápidos. Toda essa transação não passou despercebida aos olhos de meu gerente, homem calejado na profissão e conhecedor profundo dos tipos humanos, conhecia sem a mínima margem de erro os realmente necessitados. Pediu que trouxessem o ursinho até a sua mesa. Examinou-o, e tomando uma súbita decisão, pagou a quantia que havia sido dada pelo penhor. Aquela atitude pouco comum estava sendo ditada pelo coração, e ao que se sabe, esse órgão não faz caso de cautelas. Mandou embrulhar o ursinho e verificou cuidadosamente o endereço do sujeito que viera fazer o penhor. A seguir chamou um contínuo e disse-lhe:

- Localize esse endereço e devolva isso a sua dona.

- Horas depois o contínuo estava de volta. Seus lábios tremiam quando explicou em sua linguagem simples e emocionada; Era um pequeno barraco na favela da Vila Prudente, gente muito pobre, chefe, e a dona do ursinho está muito doente, quase a morte. O pai já gastou tudo o que tinha com a doença. O dinheiro do penhor era para comprar remédios. O senhor deveria ter visto o brilho nos olhos da menina quando lhe entreguei o ursinho de volta.

Notei que havia lágrimas em seus olhos quando com os lábios trêmulos terminou dizendo; Chefe, eu não chorei de vergonha.

Irineu T.Paulini 05/07/2005.

 

 

CRÔNICAS E POESIAS