REMINISCÊNCIAS

Foi pela doença da minha mãe e a dívida do meu pai com o armazém do seu Giovanetti que á muito tempo nos vendia fiado o motivo de o porquê ele vendeu a nossa chácara e comprou uma casa na Vila Rezende, bem perto do Mirante do salto para onde mudamos.

O Mirante do salto de Piracicaba era um lugar paradisíaco, uma espécie de pequena ilha presa entre o rio e um riacho menor (conhecido como Rêgo do Engenho) artificialmente construído para desviar água para o engenho central cortado por uma ponte que ligava a Vila Rezende ao centro da cidade de Piracicaba. A parte de baixo da ilha era sombreada por gigantescas árvores centenárias e uma mata preservada, que podia ser percorrida em tortuosos, mas bem cuidados caminhos, muito freqüentado por casais de namorados e por pescadores eventuais como nós que burlavam a vigilância dos fiscais do IBAMA e desciam até um lugar chamado Buracão para pescar.

La onde as águas turbulentas com seu barulho ensurdecedor, característico e milenar, ao se projetar de grande altura contra suas bases de enormes e escorregadias pedras produziam uma névoa úmida que subia da queda d água, molhando os rostos dos que por ali transitavam.

Mesmo a uma boa distância o ritmado regurgitar revolto das águas misturando-se aos melodiosos e variados sons dos cantos dos pássaros, tinha-se a impressão de se estar no centro de uma grande orquestra sinfônica regida pela magistral batuta da mãe natureza.

Piracicaba sempre foi o berço de famosos intelectuais e reconhecidos artistas da pintura, e o mirante do salto sempre foi um dos lugares preferidos desses mestres para a execução de belas obras de arte, pela exuberância de sua vegetação servindo como modelo.
E era ali que quando garoto eu passava horas a fio observando o trabalho daqueles mestres, muitas vezes não entendendo, por que alguns deles pintavam com camadas grossas e confusas para meu entendimento, mas um deles me explicou que era a escola e o estilo que cada um tinha para pintar seus quadros.

A minha presença constante e uma dedicação canina na observação dos trabalhos da maioria deles tornou-se normal para eles a ponto de ás vezes parar para conversar e fazer todo tipo de perguntas como se eu estava gostando, ou o que eu fazia, se trabalhava ou estudava e etc.

Mas eu era apenas engraxate em alguns dias da semana e o resto nadava, pescava e não fazia mais nada, a não ser dar dor de cabeça a meus pais.

Certa vez o pintor Pacheco Ferraz, um dos que sempre conversava comigo, era muito falante e contava da sua viagem a França e seus estudos em Paris na Academia Julien, sobre Montmartre, e a Place Du Tertre onde eles se reuniam para desenhar e pintar e onde se concentravam os Artistas de Rua de Paris.

Ás vezes sua esposa o acompanhava em suas idas até o mirante apenas como companhia, por que ele ficava horas por dia durante até semanas para completar uma tela, mas eu nunca fiquei sabendo o nome dela por que ele a chamava de querida, e se dizia ou contava alguma coisa complementava sempre com um (não é Querida?).

Certo dia ele comentou com a querida; Esse jovem gosta muito de pintura e quando for maior de idade poderá estudar na França também, não é Querida?

É sim assentiu ela, sorridente como sempre, com aquela boca enorme pintada exageradamente de um vermelho vivo.
Lembro-me que naquela noite após o jantar comentei com minha mãe a conversa que tivera com o pintor seu Pacheco lá no mirante sobre estudar pintura na França quando fosse maior de idade. Acariciando meus cabelos ela sorriu carinhosamente e disse que estava na hora de dormir.

Cansado de mais um dia de estripulias acabei adormecendo no colo dela como sempre acontecia, e o sonho de estudar em Paris, de Montmartre e da Place Du Tertre adormeceu num letárgico sono no colo do tempo.

O tempo passou lentamente, como é natural a todos os adolescentes que se debatem na vida a procura de um lugarzinho ao sol, o que parece ser uma missão quase impossível, e como eu não tinha a seqüencia de escolaridade as coisas se tornavam mais difíceis para mim.

Com um currículo fantástico de ex-Vendedor de frutas, Engraxate, Ajudante de Caldeireiro, Office boy, Costurador de vassouras e Mini ajudante de caminhão eu era como um mau marinheiro para o qual nenhum vento serve.

E agora empregado como aprendiz de Torneiro Mecânico em tempo integral, houve o inevitável distanciamento, e por alguns anos não tive mais tempo ou oportunidade para apreciar os trabalhos e nem conversar com os pintores do Mirante do Salto, em especial o pintor Pacheco Ferraz.

Mas durante todos esses anos com um pedaço de serra em formato de uma faquinha eu fazia minhas esculturas em giz escolar, principalmente a Venus de Milo que se amoldava perfeitamente no giz por não ter braços.

Também desenhava sempre e em qualquer papel de embrulho que chegasse as minhas mãos ou superfície que aceitasse o traço de um toco de lápis, inclusive nas paredes do meu quarto pintado de branco com cal virgem, o que resultava em intermináveis broncas por parte do meu pai, mas na verdade os papeis para desenhos para mim eram bem escassos naquela época de sérias dificuldades. Gostava muito de escrever a oração do Pai Nosso usando pena mosquito e tinta nanquim num palito de fósforo, acho que fiz centenas deles e ás vezes trocava com caixas de fósforo novas.

Eu conseguira comprar um caderno de desenho não muito bom a um bom preço de um cara que estudava na Escola de Agronomia, mas ele era reservado para as aulas de fins de semana com Frei Paulo no Colégio São Fidelis.

Alguns anos depois já beirando meus dezoito anos voltando de Pindamonhangaba para Piracicaba encontrei-os quando entrei num trem daqueles que tem bancos de madeira virados um de frente para o outro, num vagão de segunda classe da Companhia Paulista de Estradas de Ferro.

Naquela época era o transporte normal para São Paulo com baldeação em Nova Odessa para um trem Maria Fumaça que vinha da minha cidade.

Cumprimentei-os pelos nomes como, Sr. Pacheco e Dona Querida (chutei por que eu nunca fiquei sabendo o nome dela) e pedi licença para sentar o que foi prontamente concedida e em seguida acompanhada de um sorriso veio a pergunta; Você nos conhece de onde?

Do Mirante respondi, eu passava horas vendo o senhor pintar aquelas árvores enormes, não se lembra? O senhor conversou comigo várias vezes sobre seus estudos em Paris e suas pinturas e as diferentes escolas, técnicas e estilos de pintar.

Ele esboçou um sorriso e virando-se para a mulher disse; Querida, é aquele garoto loirinho que ficava sempre perto quando eu pintava se lembra Querida, e ela fitando-me disse que sim, mas como você cresceu disseram, já faz anos não é?

Sim, acho que uns quatro ou cinco anos respondi.

E o que você faz agora, perguntou o Pacheco, trabalha ou estuda?

Não engraxo mais sapatos, agora trabalho como meio oficial de torneiro mecânico no Dedini, e nos fins de semana estudo desenho e pintura com Frei Paulo no Seminário Seráfico São Fidélis há alguns anos, por que ainda não deu pra ir para a França disse eu rindo.

Ele riu também e olhando para a Querida disse; eu conheço bem Frei Paulo, você está em muito boas mãos.

Chegando a Piracicaba houve uma despedida efusivamente alegre por parte do casal quando prometemos nos vermos novamente, mas aquela foi a última vez que conversei com o Senhor e Senhora Pacheco Ferraz.

E o tempo passava enquanto o destino embaralhava as cartas e preparava o lance para a grande cartada do jogo da vida, onde o cacife era eu, e entre as acirradas lutas pela sobrevivência ainda sem conquistas, um sonho ficou esquecido no colo do tempo esperando seu despertar algum dia num futuro talvez bem distante.

Sessenta e cinco anos depois...

Em Montmartre, Paris / França.

...26 de Dezembro de 2011 pouco antes do meio dia...

Parei para contemplar demoradamente a majestosa Basílica do Sacre Coeur no topo da colina recortada por um céu azul de inverno europeu, sentindo pela primeira vez na vida uma temperatura abaixo de zero grau com um vento cortante que penetrava até a alma.

Ao lado uma pequena multidão aguardava a vez numa fila para a compra do bilhete e depois outra para entrar no Funiculare, o bondinho que transporta o pessoal até o alto da íngreme colina sagrada da Basílica.

Acompanhando outra multidão de impacientes turistas fiéis ou não eu também dispensei o bondinho e encarei os zig-zagues das centenas de degraus das escadarias que me levaria não sem várias paradas para descanso, até a Basílica plantada no plano mais alto das colinas de Montmartre em Paris.

Não propriamente a famosa Igreja, mas apenas um local, uma pequena praça logo ao seu lado era o objetivo da minha presença nessa parte do mundo, aos setenta e cinco anos de idade, sozinho e tão longe de casa.

Era época do Natal, o clima era de balbúrdia festiva e todo o pátio da Igreja estava enfeitado para as solenidades com músicas e barracas multicoloridas oferecendo todo tipo de vinhos, chocolates quentes e centenas de variados comes e bebes aos milhares de turistas que abarrotavam o local.

Atravessei por entre a multidão até a entrada da Basílica e entrei na fila para a visitação e fazer uma prece em agradecimento por ter chegado bem até ali, e me propondo até em acender uma grande vela.

Mas após a oração me desculpei com Deus por que achei que quinze euros por uma vela iam muito além da fé de um aposentado brasileiro.

Expliquei a ele que eu já assistira a uma missa e comungara, depois de uma abstenção de mais de cinqüenta anos, no dia anterior na Catedral de Notre Dame, agradeci por tudo e saí novamente para o pátio atravessando por entre a multidão em direção ao meu objetivo.

Caminhando vagarosamente como se pisasse em solo sagrado, sentindo um calafrio na espinha eu caminhava pela rua lateral da Basílica por entre exibicionistas, estátuas vivas e os tão cantados desenhistas de rua, homens e mulheres, algumas com roupas extravagantes e grandes boinas, trabalhando em seus modelos por vinte ou trinta euros por retrato, feitos para turistas de todas as partes do mundo.

Sentei numa paredinha ao lado de uma turista que estava sendo desenhada e pedi a alguém que me tirasse uma foto e em seguida prossegui meu caminho observando cada situação local e a cada atitude dos artistas a cata de clientes entre a multidão de turistas e falando em vários idiomas.

Sentia meu coração batendo forte, estava ansioso, emocionado e em estado sonambúlico, mas consciente dobrei á rua á esquerda e caminhei em direção a ela, a lendária e tão sonhada Place Du Tertre.

Estava exatamente como me fora descrita a mais de sessenta anos, talvez apenas com alguns velhos e muitos novos personagens desenhistas e pintores com suas pranchetas sob a raleada sombra de algumas árvores que ainda resistiam ao inverno com suas folhagens já moribundas e centenas de cavaletes em todo o contorno da praça com seus artistas em plena atividade.

Era uma magnífica visão do sonho para a realidade, eu já me sentia em casa, ouvindo apenas a voz de o próprio coração murmurando baixinho;

Paris aqui estou, sempre a tive em meu coração, e eu a vejo como uma mãe que amorosamente protegesse em seu regaço por mais de sessenta anos o sonho adormecido de um garoto pobre que cresceu e se tornou homem, lutou muito, venceu e envelheceu, mas nunca se esqueceu, e tinha certeza que um dia mesmo que sozinho e no inverno da vida ele estaria aqui, exatamente neste lugar, em êxtase e emocionado ver e sentir o despertar do seu longínquo sonho de infância.

Irineu T.Paulini / 2012.

 

 

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